"A justiça é cega, daí não se ruborizar com os comentários do povo"
(Machado de Assis)
Há dois anos entrei com processo de execução em face de um devedor solvente. Sofri danos de difícil reparação porque até a presente data o processo continua ileso. Nada aconteceu e o devedor está rindo escancaradamente por eu ter confiado meu infortúnio ao poder judiciário ao invés de ter feito justiça com as próprias mãos, o chamado exercício arbitrário das próprias razões.
Não há desculpas plausíveis para meu caso, apenas revela-se a notória displicência que envolve os Poderes Constituídos. Ignoram-se as dores, o sofrimento e o trágico destino de pessoas que não são respeitadas. Torna-se comum no Brasil contemporâneo, as autoridades públicas omiscuirem-se de seus deveres oficiais, frustrando a expectativa de cidadãos, que vêem no Estado, não mais um ente que lhes tutela, mas apenas um mastodonte pesado que lhes consome energias e lhes tolhe direitos elementares. Meu problema é apenas alguns dos notórios milhares de exemplos, no qual, mesmo previsto em legislação fundamental, não se materializam soluções a contento.
É o Poder Judiciário, desestruturado, com funcionários sem o devido preparo para as elevadas funções a que são colocados, com insuficiência de magistrados e em alguns casos, notabilizado pelo nepotismo e corporativismo. É o luxo e a pompa dos Tribunais e a ausência de atenção aos órgãos de primeira instancia. É o Executivo, desviando-se do cumprimento do que se lhe impõe, carecendo seus agentes de legitimidade para as ações que são incumbidos, de forma a fazer com que parcela cada vez maior da população se afaste das artes e ciências políticas. É o legislativo acanhado, subjugado a interesses de minorias e longe do que a nação está a pedir. Enfim, não se cumpre o direito, afasta-se da justiça e inibi-se a brasilidade.
Cada vez menos, pela deformação dos Poderes Públicos, menos patriótico estão os brasileiros, que já não mais se comovem com a dor dos semelhantes, interpretando como natural a miséria humana que os rodeia e cada vez mais se aproxima, causando pânico as classes abastadas e aos medianos que ainda pensam um dia poderem atingir o pico da escala social. A desgraça alheia está muito próxima e já assusta as elites, que resolvem seus problemas alheios as intervenções do Estado por não confiar nos agentes públicos de todos os Poderes e níveis.
Enfim, diante da morosidade e do preço que a sociedade paga pela ineficiência da Justiça, acompanhada de tantos escândalos que recheiam os Poderes Públicos com freqüência já habitual é que, alguns segmentos da sociedade civil, nas camadas mais carentes, buscam através de meios inidôneos, soluções as suas pendengas, exterminando pessoas justiçadas por particulares contratados e transformando sítios, como o Rio de Janeiro em verdadeiros palcos de guerra, enquanto outros segmentos pleiteiam ampla reforma do Poder Judiciário. Mas enquanto essa não se materializa os jurisdicionados testemunham silenciosamente a falta de serviço jurisdicional que paulatinamente vem desmascarando as elites e a farsa democrática.
Enquanto eu tiver direito de gritar eu vou gritar até ser ouvida!
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