Mundo contemporâneo, tecnologias avançadas para alcançar o bem-estar do homem, alimentos transgênicos, próteses quase perfeitas, robôs que realizam cirurgias com a máxima perfeição, eliminando o tremor natural da mão humana, veículos cada vez mais velozes e econômicos, energia renovável e perene, recomposição de órgãos pelo uso da biotecnologia, nanotecnologia na medicina e operações cada vez menos invasivas, aviões ultramodernos que proporcionam viagens maravilhosas, rápidas e confortáveis. Retrato de um mundo perfeito. Mas, então o que gera no homem moderno tanta violência, tanta crueldade e corrupção? O que está fazendo o homem contemporâneo tão agressivo e perverso? Filhos matam os pais para se tornarem donos de seu patrimônio, pais matam os filhos para evitar uma tragédia ainda maior, assassinos a sangue frio tiram vidas tenras por motivos torpes, ou ainda sem qualquer motivo. Os homens estão trucidando, degolando, incinerando em “micro-ondas” – pneus amontoados uns sobre os outros com a vítima dentro e tome fogo. O sexo agora é praticado abertamente nas ruas e calçadas, jovens por se formar em faculdades, já no último período dos cursos, ateiam fogo em indigentes nas ruas e dizem que foi apenas “uma brincadeira”, brigas de turmas são agendadas pela internet, formandos em medicina invadem hospital, completamente bêbados e assustam os pacientes, mães que jogam seus bebês de apenas algumas horas, ou alguns dias pela janela, ou em um rio qualquer. Crimes, drogas, prostituição, sexo desenfreado, consumo desenfreado, paixões pela internet. Será que o Diabo tomou conta? A humanidade está sofrendo de um terrível mal-estar atualmente, e os psicanalistas espremem seus 10% de inteligência para entender o porquê, o que tem causado tudo isto no homem moderno? Uma conclusão parece óbvia: O desalento. No peito da humanidade arde uma fogueira da sensação de vazio, da perda do sentido da vida. Os consultórios de psicanálise são tomados agora por pacientes apáticos e sem nenhuma esperança, e nem eles mesmos têm condições de dizer o que pode estar acontecendo. Para preencher esta sensação de vazio e de impotência diante da angústia que tudo isto provoca, há uma compulsão generalizada, onde o indivíduo busca sufocar o desamparo nas drogas, na medicação de tarja preta, no sexo compulsivo, na prática de crimes de toda ordem, na manifestação de um eu super violento. As alternativas medicamentosas apenas aliviam os sintomas da depressão, e a sua supressão joga o indivíduo na sarjeta. Daí para o suicídio é um pulo. Freud deixou um legado importante sobre este assunto, quando menciona em um de seus livros que o homem perdeu uma dupla proteção com a modernidade: A do pai e a de Deus. Se já na sua época, Freud assim o dizia, imagine se ele estivesse vivendo no mundo de hoje! Desta forma, o homem contemporâneo se embrenhou por um sentido extremamente perigoso, o do mais absoluto livre arbítrio, onde predomina o egoísmo, o egocentrismo e muitos outros “ismos”, que o tornam individualista e tem a sua visão voltada para o próprio ventre. Sem a figura do pai e sem a presença de Deus na vida do homem, reina o mais tenebroso desalento, e a humanidade busca na sua própria força recuperar o conforto da proteção que tinha e que lhe dava confiança para um viver sossegado. A família tradicional implodiu com a modernidade, as mulheres tomaram o espaço de trabalho dos homens e inflacionaram os salários, seus filhos são agora educados pelas escolas, a ética foi pelos ralos. Para onde caminha a humanidade? Que Deus tenha misericórdia de nós.
Substantivo feminino. Sentimento de cólera ou de desprezo excitado por uma afronta, uma ação vergonhosa.
Sou uma mulher que não escreve para agradar. Escrevo o que considero correto porque ouço gemidos. São os gemidos dos pobres, dos excluídos de toda sorte que ecoam em meio à indiferença e à insensibilidade da sociedade e das autoridades constituídas que têm a responsabilidade de servir ao bem comum.
Léa Miranda Acácio. Muito prazer!
Assim vou vivendo...
Trago comigo as dores de uma paisagem com definições abstratas. Procuro experimentar diariamente a vida.
Pensei que colocar os sentidos a prova e absorver cada sensação proporcionada, talvez seja a única forma de ter certeza de que nossa existência é real.
Desmedida das minhas virtudes calmantes eu escrevi silêncios, noites, anotei o inexprimível. Fiquei com as canetas do sangue vertido e pulei no oásis por mim concebido.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Fiz comédia com meu vulto despercebido e tentei inventar novas flores, novos astros, novos idiomas. Tornei-me uma poliglota das sensações sem pátria.
Criei meu relicário para depositar a minha personalidade triste. Meu olhar perdido em contraste com minha boca sorridente.
Fiz peças de ouro amarelo e espalhei seu plano sobre a ametista. Do mogno nobre do meu peito retirei as lascas que como farpas perfuravam minha razão e sustentando uma cúpula de esmeraldas abracei solitária o meu castelo sonhado. A piscina dos lamentos ganhou o cheiro das rosas e da fantasia, me senti pura outra vez.
Banhei-me na confusão profunda e lancei âncora no mar doce, pois o sal das suas lágrimas deixou há muito de existir. Hoje celebra as correntes que dão ao infinito oceano o sabor de um licor envelhecido pela experiência de cada frase pendurada no batente da vida.
Cansada de tentar me compreender, e mais cansada ainda de tentar fugir de mim, resolvi explicar meus sofismas mágicos pela alucinação das palavras e acabei por considerar sagrada a desordem da minha inteligência. Abracei a arrogância para me defender da maldade do mundo.
Jamais a esperança parou num ponto sem movimento. A ciência da minha ignorância foi a paciência do suplício lento. Espero pela vinda da manhã, mesmo que a ardência dos meus dias surja queimada pelas brasas que não são vãs, e o ardor encontre a eternidade no mar misturada com os brilhos do sol que amarram as lembranças para que nunca mais deixem de brilhar e permaneçam vivas como substâncias do meu amor.
Para onde meu Deus?
Para onde foi a força criadora das minhas idéias? Por onde elas transitam no instante que minhas mãos se poem a escrever? Qual dos principados e potestades foi o responsável por usurpar minha intenção descritiva e minha alma detalhada?
No quarto escuro que depositei minhas angústias, ficaram retidas também as letras da minha inspiração. Resignada, busco beber da fonte que me oferta a vida. Tranquila e serena desencanto as órbitas fictícias da minha galáxia em expansão.
Caminho pensativa pelo labirinto do Minotauro. Tento lembrar do rosto de Minos. Procuro as respostas nas paredes construídas por Dédalo e Ícaro. Acabo me deparando apenas com a sombra da ilustre criatura. Ao meu lado, Teseu jaz sem vida apodrece sob uma derrota inesperada que alterou o curso da mitologia. Tentei reanimá-lo, tentei revivê-lo, mas seu silêncio não me reservou nenhuma esperança. Sua espada fora levada como espólio de uma batalha por ele perdida. Restava para mim a guerra!
Onde se esconderam as linhas sagradas do novelo que orientava meus passos? Preciso correr rumo ao encontro de mim mesma. Preciso sufocar os versos noturnos que apertam meu coração. Preciso novamente inspirar minha pena mágica e escrever letras irreais. Tenho que eliminar o gosto da madeira e a sensação gélida que de forma astuta envolve minha imaginação.
Quando abandonei os inimigos do meu corpo senti-me livre e fiquei dispersa. Tentei encontrar a chance de um sorriso verdadeiro e degustei o sabor da vida.
E minhas ideias, foram sequestradas pelo Minotauro? Foram destruídas na manhã que despertei para minha alegria?
Espero o retorno da paz, como o soldado aguarda a volta do seu corpo cansado para o recanto aconchegante do lar.
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