Substantivo feminino. Sentimento de cólera ou de desprezo excitado por uma afronta, uma ação vergonhosa.

Sou uma mulher que não escreve para agradar. Escrevo o que considero correto porque ouço gemidos. São os gemidos dos pobres, dos excluídos de toda sorte que ecoam em meio à indiferença e à insensibilidade da sociedade e das autoridades constituídas que têm a responsabilidade de servir ao bem comum.

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

Depois da folia as consequencias...

Pois é, caro amigo e leitor. Estamos de volta da folia e pelo visto os acontecimentos carnavalescos serviram apenas para reafirmar como anda mal das pernas a sociedade em que vivemos. Longe de qualquer aspecto moralista carola (afinal as orgias e excessos carnavalescos são tão velhos quanto a própria humanidade) a podridão a que me refiro é a de caráter e não a da velha moral puritana.
Dois fatos ocorridos durante o carnaval conseguiram, com clareza espantosa, expor o despudor e a falta de caráter que hoje em dia é regra em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, esses fatos demonstram os comportamentos que são as matrizes que geram a podridão reinante em Brasília e em todas as esferas da vida dos brasileiros.
O primeiro fato foi à morte da menina Grazielly (três anos), atropelada por um jet ski em Bertioga no Estado de São Paulo. Esse caso, cercado de dor e repugnância, foi “coroado” pela mais profunda demonstração de desprezo pela vida e de desumanidade promovida pelos pais do menor autor do crime: Os senhores Marciano Assis Cabral e Maria Adriana Sipoleta.
Preocupados unicamente em encobrir o crime, não tentaram prestar socorro à pequena Grazielly que agonizava na areia da praia. Rapidamente, deram fuga ao seu filhinho mimado em um helicóptero que, quem sabe, poderia ter abreviado o resgate da menina e salvo sua vida.
Ao buscarem meramente encobrir o crime e desprezarem completamente a vítima, os dois mostraram ao filho a famosa “esperteza” do brasileiro. Afinal, mais do que salvar a vida de uma criança ou assumir um erro cometido, o importante mesmo é usar todos os recursos financeiros disponíveis para tentar escapar das consequências e fugir o mais rápido possível do flagrante. Talvez, quem sabe, torcer pela costumeira “eficiência” da polícia brasileira em investigações se manifestar e tudo acabar em uma gaveta empoeirada de uma delegacia qualquer.
Por sorte, a imensa comoção pública acabou levando a polícia a cumprir o seu papel e a identificar os criminosos. Como sempre, os espertos, pretendem culpar o acaso. Afirmam que o menor não pilotava o jet ski. Ele apenas “teria ligado o veículo” e o desastre ocorrera. O “pequeno detalhe” é que centenas de testemunhas viram o menino pilotar o veículo, perder o controle da embarcação e atropelar Grazielly.

A recusa em prestar socorro, ajudando a vítima e sua família, além da negação constante da autoria do fato – mesmo diante de inúmeras testemunhas oculares – e, em primeiro lugar, não educar e impor limites ao seu filho, permitindo que uma criança pilotasse um veículo potencialmente perigoso. Mostram que a postura do casal durante os fatos é o retrato cabal de uma sociedade que perdeu a perspectiva e a civilidade.
O segundo fato foi o dantesco espetáculo ocorrido na apuração do desfile das escolas de samba paulistanas. Um absurdo total que não pode ser tolerado e cujos componentes políticos parecem cada vez mais evidentes. Afinal, os boatos iniciais de que elementos ligados a um partido político e descontentes com a baixa pontuação da escola que homenageou o seu “Grande Líder” e teriam dado início à confusão, parecem agora se confirmar. Já que a própria polícia paulista, no decorrer das investigações, chegou à conclusão de que o espetáculo de vandalismo e violência já estava orquestrado e foi dirigido por elementos infiltrados nas diretorias e torcidas de determinada escola.
Seja verdade ou não a questão da infiltração de militantes incentivando a baderna; o certo é que todas as escolas envolvidas devem ser severamente punidas com o banimento. Só isso demonstraria a necessidade de um comportamento ético e civilizado nesse meio e valorizaria o que resta de cidadania em nossa sociedade. Mas, pelo retrospecto e pelo que vejo dia após dia, a coisa deve “acabar em samba”.
Espero que, para o bem de nossa nação e das próprias escolas de samba de São Paulo, isso não se confirme. Já passou da hora do governo paulistano perceber e encarar o fato de que essas torcidas organizadas e suas ramificações são verdadeiras quadrilhas de elementos perigosos e núcleos de violência. Quem, em sã consciência, carrega Coquetéis Molotov’s (bombas incendiárias) para uma festa? Só mesmo elementos perigosos e dispostos a tudo.
A cultura do “eu primeiro”, do “tudo pode”, do “eu quero”, do “levar vantagem em tudo” e do desprezo total e completo pelo simples direito a vida de outras pessoas é o que vem marcando a sociedade brasileira cada vez mais profundamente e mergulhando nosso povo no desespero e na desilusão.
A única forma de frear essa degeneração acelerada e impedir que acabemos todos envoltos pela barbárie e pela lei do mais forte; é a punição exemplar dos culpados e a mudança de hábitos familiares. Os pais devem saber que impor limites é a coisa mais importante na educação de uma criança. Atrevo-me a dizer que isso é mais importante até do que ensiná-la a ler e a escrever. Pois, ciente de que a vida em sociedade consiste em respeitar os direitos dos outros enquanto usufrui os seus e de que as derrotas podem ser tão frequentes quanto as vitórias a criança terá a chave para uma vida longa e próspera e para viver e formar uma sociedade capaz de gerar oportunidades para todos.
Se, segundo Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros; uma grande nação é feita com civilidade, respeito às leis, humanidade, cidadania e compreensão de que os outros também têm direitos.
Sem isso, nada mais é possível e o que resta é apenas a barbárie.

FARSA

Mais uma vez, como numa grande partida de futebol, o populacho delirou ao saber da condenação de Lindemberg Alves – o assassino de Eloá Pimentel – a mais de noventa e oito anos de cadeia. Infelizmente, o que o parecem desconhecer é o fato de que, no país onde o crime compensa ser condenado a noventa e oito anos de cadeia é apenas mais uma farsa.
Como se já não bastasse à aberração legal, disfarçada de preocupação com os direitos humanos, que restringe o cumprimento de pena a meros trinta anos de reclusão; fazendo com que o criminoso brasileiro goze da possibilidade de matar milhões e jamais pagar com uma sentença pífia por seus crimes. Ainda se colocam as famílias das vítimas verdadeiramente a ver navios e, em alguns casos, a reviver o drama e o trauma da morte de seu ente querido ou conviver com o risco da ameaça psicológica constante da libertação de seu algoz em pouquíssimo tempo.
Mesmo que cumpra os trinta anos de cadeia; Lindemberg sairá jovem e forte da cadeia. Apto a assassinar mais algumas Eloás incautas, que ousarem decidir que não o querem mais por perto. Afinal, com apenas vinte e cinco anos, Lindemberg sairá da cadeia com meros cinquenta e dois anos (afinal já cumpriu uns três anos). Estará, pois, na flor da idade.
Sua frieza e sua inacreditável aparência robusta deixam bem claros para todos a impressão de que o assassino tem boa comida e certa tranquilidade na cadeia onde cumpre sua pena. Pois, quando em liberdade, seu físico era franzino e até parecia padecer de má alimentação. Tudo isso é claro, gozando de um gordo auxílio reclusão de mais de R$ 800,00 mensais (garantidos no governo Lula), além do que faturar no presídio se exercer algum trabalho durante sua pena. Nem vou mencionar os gastos para mantê-lo gordinho na cadeia. Isso, já sabemos, custa mais do que o governo gasta com um aluno ou com um trabalhador no “seguro” do INSS.
De certo mesmo, para definir seu grau de psicopatia, resta a sua fria declaração ao ser preso: “Estou feliz. Ela está morta e eu estou vivo”. Esse é o retrato do jovem que será engordado e sustentado a pão-de-ló num sistema penitenciário criado sob medida para homens como ele.
Todas essas reflexões, caro leitor, são apenas baseadas no provável cumprimento dos trinta anos de cadeia aos quais foi condenado. Mas, como bem sabemos, Lindemberg é primário e – no Brasil – isso concede a qualquer cidadão uma licença automática para matar. Não faltarão advogados interessados em defender os direitos humanos do pobre menino injustiçado e esmagado pela mídia, acenando com os inúmeros benefícios que o aguardam durante esses anos de reclusão faltantes. Lindemberg jamais cumprirá sequer a metade desses trinta anos de cadeia e não me surpreenderia se, daqui a dez anos (ou menos), ele estiver de volta às ruas perseguindo as famílias de suas novas vítimas.
O nobre leitor causídico, com vasta experiência no direito, refuta?
Ora! Para vocês cito o exemplo vivo do que são capazes nossas leis unidas a um bom advogado: Os assassinos da jovem atriz Daniela Perez foram condenados a dezenove anos e seis meses de prisão – também por homicídio triplamente qualificado – não amargaram seis anos de cadeia. Além disso, pouco depois de libertados, reconquistaram o status de “primariedade” renovando sua licença para matar; obrigando a mãe de sua vítima a realizar uma cruzada em prol de uma mudança na legislação.
Querem outro absurdo? Salvatore Cacciola. Fugiu e ficou anos na Itália curtindo a grana que roubou aqui. Foi capturado por acaso, num esquecimento fatal de sua parte, e poucos meses depois de encarcerado no presídio em Bangu, ganhou “progressão de regime”; ficando livre para fugir de novo quando quiser.
Em que outro lugar do planeta um réu que já se evadiu, tem vastos recursos para tal e é de difícil extradição ganharia novamente liberdade condicional ou qualquer benefício penal? 
Devemos, uma vez por todas, acabar com essa falácia de que cadeia deve recuperar alguém e remodelar o caráter do preso. Cadeia é para punir e afastar facínoras e psicopatas perigosos do convívio com a sociedade.
Quem pode, em sã consciência alegar que um Fernandinho Beira-Mar, um Elias Maluco, um FB, um Champinha – perigosíssimo psicopata que estaria livre se não fosse uma manobra legal de um grupo de advogados e das famílias de suas vítimas – e tantos outros criminosos contumazes ou elementos que cometeram crimes violentos vão se recuperar e viver licitamente em sociedade?
Nem se ficassem internados em uma prisão Suíça meus caros. Em nosso meio há um número de indivíduos predestinados geneticamente a serem marginais da lei. A ciência comprova o fato de haver cerca de três a seis por cento de psicopatas na população mundial.
Se hoje somamos seis bilhões de pessoas no planeta, esses são números consideráveis. Portanto, são indivíduos irrecuperáveis e altamente perniciosos para a sociedade. Devendo ser eliminados ou internados em instituições penais por toda a vida ou até não serem mais capazes de oferecer qualquer risco a terceiros.
Compreender que a “justiça para inglês ver” e essas falsas sentenças judiciais, na verdade, premiam os criminosos transformando as famílias das vítimas e a sociedade em novos alvos para a sanha assassina desses criminosos. A isso de soma a péssima performance das polícias judiciárias (que não elucidam – ou mesmo investigam – noventa e cinco por cento dos crimes) são a fonte interminável de impunidade, mortandade e alimentam o ciclo eterno de violência que experimentamos em nosso país.
Infelizmente, para mudar isso só com uma enorme pressão popular. Pois, os próprios legisladores, elaboram leis frágeis e criam benefícios penais dos mais diversos, justamente com medo de um dia virem a experimentar o longo braço da lei.
Felizmente, para eles, hoje o braço da lei aqui no Brasil não é longo e muito menos forte.
Acabar com a impunidade e fazer o delinquente ter a certeza de que será apanhado e punido rápida e severamente é a única forma de diminuir a violência e levar nossa sociedade a um patamar de maior tranquilidade e mais liberdade para quem realmente a merece.

O MINISTÉRIO DILMA


Nova ministra da Mulher confessa que já treinou abortos por sucção mesmo não sendo médica. Mais: ela se considera avô de um neto, mas também do aborto



No dia 14 de outubro de 2004, a então apenas professora Eleonora Menicucci, que tomou posse como ministra das Mulheres na semana passada, concedeu uma entrevista a uma interlocutora chamada Joana Maria. O texto está nos arquivos da Universidade Federal de Santa Catarina (a íntegra está aqui). Já fiz uma cópia de segurança porque essas coisas costumam desaparecer quando ganham publicidade. Está certamente entre as coisas mais estarrecedoras que já li. De sorte que encerro assim este primeiro parágrafo: se um torturador vier me dar a mão, eu a recuso, cheio de asco. Se a ministra Eleonora vier me dar a mão, eu me comportarei da mesma maneira, com o estômago igualmente convulso.
Antes que entre propriamente no mérito, algumas considerações. Aqui e ali, tenta-se caracterizar a ministra como uma espécie de defensora apenas intelectual do aborto, apegada à causa no universo conceitual, retórico, de sorte que a sua nomeação não representaria um engajamento da presidente Dilma Rousseff e de governo na causa do aborto. Falso! Falso e na contramão dos fatos. Alguns parlamentares, notadamente da bancada evangélicas, fizeram duros discursos contra a ministra e foram caracterizados pela imprensa como uns primitivos ideológicos. Então vamos ver se a ministra está com a civilização…
Abaixo, transcrevo alguns trechos daquela sua entrevista, concedida quando ela já estava com 60 anos. Não se pode dizer que o diabo da imaturidade andava soprando em seus ouvidos. Não! Eleonora confessa na entrevista que não é apenas “abortista” — termo a que os ditos progressistas reagem porque o consideram uma pecha, uma mácula. Ela também é aborteira. Viajou pela sua ONG à Colômbia para aprender a fazer aborto por sucção, o método conhecido como AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina). Deixa claro que o objetivo de seu trabalho é fazer com que as pessoas se “autocapacitem” para o aborto, de sorte que ele possa ser feito por não-médicos. É o caso dela! Atenção! DILMA ROUSSEFF NOMEOU PARA O MINISTÉRIO DAS MULHERES uma senhora que defende que o aborto seja uma prática quase doméstica, sem o concurso dos médicos. Por isso ela própria, uma leiga, foi fazer um “treinamento”. Não! Jamais apertaria a mão de torturadores. E jamais apertaria a mão de dona Eleonora por isto aqui (volto depois)
 “ESTIVE TAMBÉM FAZENDO UM TREINAMENTO DE ABORTO NA COLÔMBIA, POR ASPIRAÇÃO”Eleonora -  Dois anos  Aí, em São Paulo, eu integrei um grupo do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. ( ). E, nesse período, estive também pelo Coletivo fazendo um treinamento de aborto na Colômbia.Joana - Certo.Eleonora - O Coletivo nós críamos em 95.
Joana - Como é que era esse curso de aborto?Eleonora - Era nas Clínicas de Aborto. A gente aprendia a fazer aborto.Joana - Aprendia a fazer aborto?Eleonora - Com aspiração AMIU.Joana - Com aquele…
Eleonora - Com a sucção.Joana - Com a sucção. Imagino.Eleonora - Que eu chamo de AMIU. Porque a nossa perspectiva no Coletivo, a nossa base…
Joana -  é que as pessoas se auto auto-fizessem!Eleonora - Autocapacitassem! E que pessoas não médicas podiam…
Joana - Claro!Eleonora - Lidar com o aborto.Joana - Claro!.Eleonora - Então vieram duas feministas que eram clientes, usuárias do Coletivo, as quais fizeram o primeiro auto-exame comigo. Então é uma coisa muito linda.Joana - Hum.Eleonora - Muito bonita! Descobrirem o colo do útero e…
Joana - Hum.Eleonora - Ter uma pessoa que segura na mão.Joana - Certo.

“NÓS DECIDIMOS, EU E O PARTIDO, QUE EU DEVERIA FAZER UM ABORTO”Num outro trecho, Eleonora conta como ela e o seu partido, o POC (Partido Operário Comunista), tomaram uma decisão: ela deveria fazer um aborto. Tratava-se apenas de uma questão… política!Eleonora - Porque a minha avaliação era que eu tinha que fazer
Joana -  a luta armada aqui.Eleonora -  a luta armada aqui. E um detalhe importante nessa trajetória é que, seis meses depois de essa minha filha ter nascido, eu fiquei grávida outra vez. Ai junto com a organização nós decidimos, a organização, nós, que eu deveria fazer aborto porque não era possível
Joana - Certo.
Eleonora - Na situação ter mais de uma criança, né? E eu não segurava também. Aí foi o segundo aborto que eu fiz.

“EU TIVE MINHA PRIMEIRA RELAÇÃO COM MULHER. E TRANSAVA COM HOMEM; ESTAVA COM MEU MARIDO”Falastrona e ególatra, como já apontei aqui, ela faz questão de contar na entrevista que teve a sua primeira relação homossexual quando ainda estava casada. Era o seu mergulho no que ela entende por feminismo.Eleonora - Aí já nessa época eu radicalizei meu feminismo. Eu comecei a militar.Joana - Onde?Eleonora - Em Belo Horizonte, eu comecei a militar neste grupo.Joana - Neste mesmo grupo?Eleonora - ÉJoana - O que se fazia além de discutir?Eleonora - Nós discutíamos o corpo.Joana - Certo.Eleonora - Discutíamos a sexualidade. Eu tive a minha primeira relação com mulher também.Joana - Hum.Eleonora - Quer dizer que foi bastante precoce pra essa  E transava com homem.Joana - Certo.Eleonora - Pra minha trajetória
Joana - Mesmo porque tu também estavas com o teu marido eu acho, não estavas?
Eleonora
 - Sim, sim.
Joana - Estavas. Ah
Eleonora - Mas nós nunca tivemos esse  E ele era um cara muito libertário. Nós nunca tivemos essa questão de relação
Joana: Certo.
“SOU MUITO AMIGA DO FREI BRETTO. ELE ME PÔS NO CENTRO DE DIREITOS HUMANOS DA DIOCESE DE JOÃO PESSOA”Ora, qual é o lugar ideal para uma humanista desse quilate trabalhar? Frei Betto — sim, aquele… — deu um jeito de arrumar pra ele um emprego na Arquidiocese de João Pessoa:Eleonora - E aí, no início de 78, eu já tinha me separado do meu ex-marido e resolvo sair de Belo Horizonte. Aí quando eu saio de Belo Horizonte eu busco um lugar bem longe porque eu não queria mais ser referência para a esquerda.
( )
Eleonora - E eu não podia. Então eu procurei isso. Sou muito amiga, por incrível que pareça, a vida inteira, do Frei Betto e pedi a ele pra me encontrar um lugar o mais longe possível de Belo Horizonte. Aí ele falou “Eu tenho dois lugares onde a Diocese é muito aberta: em Vitória, com Dom Luís, ou em João Pessoa, com Dom José Maria Pires. Eu falei: “Eu quero João Pessoa”, quanto mais longe melhor.
( )
Eleonora - É  Mas, assim, eu cheguei, eu. Eu tive que construir minha vida.
Joana -  Hum. Foste trabalhar?Eleonora - No Centro de Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba.Joana - Tá legal.Eleonora - E aí eu comecei a trabalhar com as mulheres rurais de Alagamar, que era o que eu queria ( ) Logo depois, retomei um grupo, a minha atividade de grupo de reflexão feminista com algumas mulheres em João Pessoa. A maioria de fora de João Pessoa e duas de dentro   Então nós criamos o primeiro grupo feminista lá em João Pessoa. Chamado Maria Mulher.( )
Eleonora - É. “Quem ama não mata” e “O silêncio é cúmplice da violência”, e aí começamos a nos articular dentro do Nordeste.
Joana - Tá.
Eleonora - Era o SOS Mulher. O SOS Corpo e um grupo de reflexão que tinha em Natal 

Joana
: Hum.
Eleonora - De auto-reflexão. E no Maria Mulher, o que é que nós fazíamos? Nós fazíamos auto-exame de colo de útero, auto-exame de mama.( )
Eleonora - Depois, em 84, eu venho pra São Paulo fazer doutorado em Ciência Política, já articuladíssima…

Joana-  Imagino…Eleonora - com o feminismo e com linhas de pesquisa bem definidas do ponto de vista feminista.Joana - Quem é que te orientou em São Paulo?Eleonora - Em São Paulo, foi a Maria Lúcia Montes, uma antropóloga. Embora, na época, ela fosse da Ciência Política. E, em 84, eu entro para o doutorado com uma tese que era sobre Direitos Reprodutivos e Direitos Sexuais a partir  É a construção da cidadania a partir do conhecimento sobre o próprio corpo.Joana -  Isso por conta do teu trabalho com as mulheres?Eleonora - Por conta do meu trabalho com as mulheres em uma favela chamada Favela Beira-Rio.Joana - Certo.Eleonora - Lá em João Pessoa.Joana - Hum.Eleonora -  Que hoje é um bairro. Então nesta época eu fiquei quatro anos em São Paulo fazendo a tese e voltando a João Pessoa. ( ) E aí fui coordenadora do grupo de Mulher e Política da ANPOCS, do GT.
Joana: Hum.

“EU TINHA ATITUDES MASCULINAS ( ) ERA DECIDIDA, DETERMINADA, FORTE, SABIA ATIRAR”Neste trecho, ela revela como enxergava — enxergará ainda? — os papéis masculino e feminino. Ah, sim: ela sabia “atirar”. Afinal, não se tenta impor uma ditadura comunista no país só com bons sentimentos, não é?Joana - Já. E com relação às organizações das quais tu participavas?
Eleonora - Ah, primeiro que as mulheres dificilmente chegavam a um cargo de poder 

Joana -
 Mas tu eras a chefe?
Eleonora - Eu era. Fui uma das poucas. Por quê? Eu me travesti de masculino
Joana - É? Como era?
Eleonora - Eu tinha atitudes masculinas ( ) Era decidida, determinada, forte, sabia atirar 

Joana -
 Huuunnnn.
Eleonora - Entendeu?Joana - Entendi.Eleonora - Sendo que muitas mulheres sabiam isso tudo.Joana - Certo.Eleonora - Transava com vários homens.Joana - Certo.Eleonora - Essa questão do desejo e do prazer sempre foi uma coisa muito libertária pra mim, e por isso eu fui muito questionada dentro da esquerda.Joana - É?Eleonora - É.Joana - Dentro do mesmo grupo do qual tu eras a líder?Eleonora - Sim. Porque o próprio  Por questões de segurança, eu só poderia ter relação sexual com os companheiros da minha organização.Joana - Certo.
Eleonora - Num determinado momento, sim, mas na história do movimento estudantil, também já existia isso.
“EU TIVE MUITAS REFLEXÕES COM MINHAS AMIGAS NA CADEIA; UMA DELAS, A DILMA”Neste outro trecho, a gente fica sabendo que Dilma Rousseff foi sua companheira também nas reflexões sobre o feminismo.Eleonora - E, depois, imediatamente eu quis ter outro filho
Joana - Hum.
Eleonora - E muito no sentido de pra provar para os torturadores, mesmo que fosse simbolicamente, que o que eles tinham feito comigo não tinha me tirado a possibilidade de reproduzir e de ter uma escolha sobre meu próprio corpo
Joana - Hum.Eleonora - Então eu tive mais um filho e logo que ele nasceu também de cesária eu me laqueei.Joana - Certo.Eleonora - Então Eu tinha , Eu fui presa com 24 para 25 mais ou menos.
Joana - Nossa Senhora!.Eleonora -.E sai com 30.Joana - Certo.Eleonora - Assim, da história toda e com 30 para 31, tive o meu segundo filho e fiz a laqueadura de trompas 
( )
Joana -  E então, tu saíste da cadeia em 74.
Eleonora - Certo.Joana - Tu tiveste algum contato com o feminismo dentro da cadeia, com leituras feministas.
Eleonora - Não.Joana - Ou depois?Eleonora - Não, não. Ao longo da cadeia eu tive  Durante a cadeia? Eu tive muitas reflexões com as minhas companheiras de cadeia
Joana - Tá.Eleonora - Uma delas é a Dilma Roussef.( )
Joana - Fizeram uma espécie de grupo de consciência?
Eleonora - Grupo de reflexão lá dentro.Joana - Grupo de reflexão.
( )
Eleonora - Porque eu já saí  É.. Eu já saí em 74, eu saí em outubro.
Joana - Certo.Eleonora - No dia 12, Dia da Criança, eu saí já bem claro que eu era feminista.Joana - Certo.Eleonora - E, logo que eu saí da cadeia, eu em Belo Horizonte, fui procurar um grupo de mulheres.Joana - Esses grupos de consciência?Eleonora - É, só que era um grupo de lésbicas.Joana - Certo.Eleonora - E eu não sabia. Era um grupo de pessoas amigas minhas.( )
Eleonora - Porque eu voltei a estudar!
Joana - Ah, legal!Eleonora - Eu parei de estudar em 68.Joana - Huuummm.Eleonora - Eu parei no quarto ano de Medicina e no quarto de Ciências Sociais.Joana - Foste concluir?Eleonora - Fui, aí eu voltei pra concluir.
Joana - Certo.
Eleonora -  Na UFMG, e optei por acabar Sociologia.

“SOU AVÓ DE UMA CRIANÇA NASCIDA POR INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL NA MÃE LÉSBICA; E TAMBÉM SOU AVÓ DO ABORTO”Finalmente, destaco outro momento de grande indignidade na fala desta senhora. Ao se dizer avó de um neto gerado por inseminação numa filha lésbica e também “avó do aborto”, não só expõe a sua vida privada e a de seus familiares como, é inescapável constatar, demonstra não saber a exata diferença entre a vida e a morte. Leiam. Volto para encerrar.Eleonora - E eu digo que a questão feminista é tão dentro de mim, e a questão dos Direitos Reprodutivos também, que eu sou avó de uma criança que foi gerada por inseminação artificial na mãe lésbica.Joana - Hum, hum.
Eleonora - Então eu digo que sou avó da inseminação artificial.Joana: (risos)Eleonora - Alta tecnologia reprodutiva. E aí eu queria colocar a importância dessa discussão que o feminismo coloca no sentido do acesso às tecnologias reprodutivas.Joana - Certo.Eleonora - Entendeu? E eu diria: “Eu fiz dois abortos e também digo que sou avó do aborto também porque por mim já passou.Joana - Sim.
Eleonora - Também já passou nesse sentido. E diria que eu sou uma mulher muito feliz e muito realizada. E eu pauto em duas questões: na minha militância política e no feminismo.

EncerroÉ isso aí. Ao nomeá-la ministra, Dilma escolheu sua trajetória, suas idéias, suas práticas. Peço a vocês que comentem com a fleuma necessária. É preciso que se evidencie, com a devida serenidade, que uma aborteira informal e confessa não pode ter lugar na Esplanada dos Ministérios. A sua entrevista como um todo evidencia um pensamento torto. É inconcebível que esta senhora seja considerada uma articuladora de políticas públicas depois da confissão que fez. Até porque, se estivesse no Brasil, não na Colômbia, seu lugar seria a cadeia — em pleno regime democrático, sim, senhores!
 É o fundo do poço.
Por Reinaldo Azevedo