Substantivo feminino. Sentimento de cólera ou de desprezo excitado por uma afronta, uma ação vergonhosa.

Sou uma mulher que não escreve para agradar. Escrevo o que considero correto porque ouço gemidos. São os gemidos dos pobres, dos excluídos de toda sorte que ecoam em meio à indiferença e à insensibilidade da sociedade e das autoridades constituídas que têm a responsabilidade de servir ao bem comum.

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

Vergonha nossa de cada dia!!!



A manutenção do mandato da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), filha de Joaquim Roriz – caudilho dos cerrados, também personagem de histórias desabonadoras -, vai além de mais um produto do espírito de corpo dos parlamentares. É especial o momento em que a Câmara dos Deputados decide preservar Jaqueline, apesar da prova documental do vídeo em que a ainda futura deputada recebe dinheiro vivo, sujo, de Durval Barbosa, o homem da mala no governo de José Roberto Arruda (DEM). Mesmo que a presidente Dilma Rousseff indique haver recuado na faxina ética na máquina pública, os casos de malfeitos no primeiro e no segundo escalões do governo continuam a reverberar. Depois de muito tempo de letargia, parece crescer nos segmentos mais informados da sociedade uma repulsa à banalização do roubo do dinheiro do contribuinte. Mesmo assim, os 265 deputados que votaram contra a cassação de Jaqueline, os 20 que se abstiveram e outros que a ajudaram faltando à sessão demonstraram não estar nem aí para o que se pense sobre a absurda votação de terça-feira.
Não enrubesce a maioria da Câmara, como se viu, concordar com o caviloso argumento de que a cena explícita de corrupção patrocinada por Jaqueline não pode ser considerada como prova, por ela ter ocorrido antes da posse na Câmara (!?). Nesse caso, qualquer crime cometido até o início de mandato deve ser relevado em processos de quebra de decoro. Trata-se de exemplar primoroso de teorias destiladas num ambiente político sem ética, para jogar no lixo o conceito da Ficha Limpa.
Como em vezes anteriores, os defensores de Jaqueline buscaram apoio com a ameaça de que todo parlamentar com prontuário construído antes da posse poderá um dia ser cassado. A Câmara tenta criar jurisprudência de anistia de crimes, uma excrescência.
A manutenção do mandato de Jaqueline é fruto da degradação da vida pública, aprofundada pelo exercício crescente do toma lá dá cá por parte do lulopetismo. Como, a partir de 2003, passou a ser executado um projeto de manutenção do poder a qualquer preço, a qualidade da representação política foi ainda mais rebaixada. Pelo fato de os balcões de negociatas passarem a conduzir parte da vida parlamentar e ditarem a montagem de equipes de governo, a tônica do Congresso passou a ser a do baixo clero. Um Severino Cavalcanti presidir a Câmara, renunciar para não ser cassado por receber propina e, depois, ser elogiado nos palanques pelo presidente Lula simboliza bem os tempos sombrios que se vive na política brasileira. A derrota do pedido de cassação de Jaqueline Roriz está coerente com o nível da atual vida pública no país.
Estas situações redobram a importância de instituições na preservação do estado de direito, em todos os aspectos. O Ministério Público, por exemplo, que processa a deputada. E a Justiça, em que se destaca o Supremo, guardião da Carta. Neste aspecto, o caso da escandalosa absolvição da deputada reforça a necessidade imperativa de a Lei da Ficha Limpa vigorar por inteiro a partir das eleições do ano que vem, depois da discutível decisão por um voto, no Supremo, de que a lei estourara os prazos para ser aplicada em 2010. É também a falta deste filtro que facilita a entrada na vida pública de pessoas de baixa estatura moral, dispostas a tudo para conseguir e manter benesses dos donos do poder.

UM BRINDE A SACANAGEM




O  Brasil passa por mais uma difícil etapa em sua história política. Os escândalos se multiplicam deixando uma lista diminuta de pessoas idôneas no desempenho de sua função pública. As fraudes, falcatruas, manobras escusas de administração são exibidas nos noticiários continuamente deixando pouco ou  quase nada de tempo para se falar dos políticos honestos.
Tudo pode ser visto pela TV, a do senado. Ela deveria ser uma ferramenta de transparência, mas o simples fatos de transmitir as sessões cheias de desafetos e atos mal educados não garantem em nada o exercício da transparência, apenas revela o delicado quadro político que nos governa.
Acusados e acusadores trocam farpas, cada um defendendo seu próprio interesse. Quem assiste ao vergonhoso espetáculo tem a árdua tarefa de emitir seu juízo pessoal, formar uma opinião madura, equilibrada, livre de parcialidades descomedidas.
Os políticos acusados sabem muito bem se são inocentes ou dignos das sanções de colegas e da lei. Claro, a defesa de cada um já é bem conhecida por todos. E para falar a verdade, o desenrolar de tudo isso lembra bastante um jogo de cartas marcadas.
É. Parece que estamos no mato sem cachorro; sem faca e sem queijo nas mãos, apenas um desejo, o de que tudo mude.  O  horizonte não é promissor. Contudo poderíamos  apurar mais nosso senso crítico. Poderíamos nos preocupar mais com a crise no senado do que com as querelas dos reality show, com as novelas, com os salários milionários de artistas e jogadores.
Ainda não chegamos ao ponto da maturidade social; na chamada união que faz a força. Ao se tratar de política sempre se fica na retaguarda, uns porque temem desprender o rabo preso, outros por terem uma aliança ao comodismo ou ainda ao fato de se ter uma profunda lealdade à realidade daqueles que ocupam um cargo idealizado para nós ou para os nossos. Quem sabe na próxima política obteremos uma “boquinha”, corre-se o terrível risco de pensar.