Substantivo feminino. Sentimento de cólera ou de desprezo excitado por uma afronta, uma ação vergonhosa.

Sou uma mulher que não escreve para agradar. Escrevo o que considero correto porque ouço gemidos. São os gemidos dos pobres, dos excluídos de toda sorte que ecoam em meio à indiferença e à insensibilidade da sociedade e das autoridades constituídas que têm a responsabilidade de servir ao bem comum.

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

Léa Miranda Acácio. Muito prazer!

DEGRADAÇÃO PLENA


Ninguém mais do que eu quer ver o Mensalão julgado e a corja de corruptos na cadeia ou destruída politicamente. Mas, que a CPI do Cachoeira deveria mesmo chamar o Procurador Geral da República para explicar quais foram os motivos que o levaram a engavetar as conclusões do inquérito da Polícia Federal desde 2009; isso deveria.

Infelizmente, chegamos a tal ponto de degradação de nossas instituições republicanas, tomadas pela corrupção sistêmica em níveis absolutos e pelo aparelhamento ideológico, que somos obrigados a engolir esse comportamento totalmente estranho do procurador, sob pena de inviabilizarmos uma possível condenação dos réus do Mensalão.

Assim, para evitar um mal maior (a absolvição de corruptos da mais alta estirpe pela prescrição de seus crimes), devemos fechar os olhos para a ineficiência; para a incompetência ou mesmo para a cumplicidade com um dos maiores esquemas corruptores que o Brasil já viu da figura que deveria representar os interesses e defender judicialmente o povo brasileiro. Afinal de contas, a função do Procurador Geral da República é justamente esta: proteger os interesses do povo contra os desmandos dos três poderes e seus membros.

Mesmo sabendo que a convocação do procurador, especialmente pedida com o afinco extraordinário da turma do PT, é meramente uma manobra para provocar o impedimento de sua participação no julgamento (pois o procurador, como acusador, não pode servir como testemunha e, ao fazê-lo ficaria impedido); é patente que algo muito estranho aconteceu e deveria ser trazida a luz da verdade e que a convocação tem como objetivo maior causar a queda do Procurador através da criação de dúvidas sob a sua lisura profissional.

Fatos tristes como estes só podem acontecer sob a égide de uma nação alienada cujo povo pouco se preocupa com o estado de suas instituições políticas. Tal nível de corrupção, tão facilmente tolerado e assimilado pela população, acaba se voltando exatamente contra o cidadão tornando-o indefeso frente ao Estado.

Se nem mesmo as instituições que deveriam ser o último bastião da defesa do cidadão comum contra os desmandos das autoridades e a prepotência do Estado são confiáveis ou desempenham seu trabalho de forma limpa e eficiente; o perigo de descambarmos para um Estado totalitário se torna real e perigosamente presente.

Pois, se todas as instituições republicanas passam a servir apenas a quem lhes afaga o bolso, derrama-lhes propinas ou simplesmente apenas defende os interesses de quem nomeia seus membros; qual esperança teria o cidadão comum de defender-se contra abusos cometidos pelas autoridades que teriam pleno domínio de toda a máquina legal da nação?

Esse é o ponto definitivo do debate e a mostra mais perversa da situação em que nos encontramos atualmente. Dominados e paralisados pela corrupção ou escravos do aparelhamento de nossas instituições por orientações ideológicas de qualquer natureza. Assim, somos obrigados a fechar os olhos para um possível crime como única forma de ver um mal maior punido.

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