O 15 de Novembro, data em que se comemora a Proclamação da República, foi mais um desses momentos em que o povo foi alijado do processo histórico, talvez não por simples estultice, mas por subordinação a um irresistível e desmedido processo de violência simbólica, que tem sido amplamente utilizado na nossa história como forma de legitimar à dominação das elites, de modo a incutir nas massas a legitimidade desse processo. Teria sido assim que, “bestializado”, o povo assistiu a passagem do regime monárquico para o republicano, o que no final das contas, pouco ou quase nada alteraria no cenário político do país.
Mais de um século se passou e a trágica cena de usurpação do papel de protagonista da história nacional, que deveria ser exercido pelo povo, ainda se encontra em cartaz. O destino da “res publica”, lastimavelmente, segue nas mãos de uma minoria ávida por poder, pouco provida de escrúpulos e caráter, que não se cansa em sugar das veias de uma democracia ainda convalescente, recursos tão precisos, que seriam suficientes para sanar tantos males de que padece nosso povo.
Os vampiros do poder não se importam de rapinar de forma vil as riquezas do país. Entregam-na de maneira descarada e inescrupulosa aos interesses de grupos ímprobos – na farra das licitações se vão as esperanças de um Brasil socialmente mais justo. E o povo? Ele, o titular do poder na concepção clássica de república pós-iluminista, segundo uma concepção de “rousseauniana”, continua a assistir seus representantes agirem de forma contrária a seus interesses, pois, de fato, nas grandes decisões envolvendo o destino da nação, os interesses dos poderosos têm maior peso na balança decisória, configurando um totalitarismo disfarçado, que de democrático não tem nada.
Assim, infelizmente, a república no Brasil parece que resulta da confluência de uma situação econômica incompatível com o regime político democrático. Afinal, como esperar que um cidadão haja como “senhor do seu destino” se, por conta da fome, da miséria e de tantos outros males, este, fatalmente, é obrigado a vender seu bem jurídico mais precioso – o voto – em troca de algumas migalhas. Se é que, só para citar um exemplo, num país onde mais da metade da população vive em situação nutricional precária, se pode esperar que brasileiros, como muitos que se encontram perdidos por entre os rincões de pobreza deste Brasil a fora, possam se preocupar em refletir sobre a importância de datas comemorativas e seus significados implícitos, quando a grande preocupação do seu dia-a-dia é saber o que terá pra comer no dia seguinte.

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