Não gosto desta democracia. Uma democracia que sobrevive através de subterfúgios, que se não preveniu contra as desigualdades sociais, antes as estimula, autoriza-nos a combatê-la sem tréguas, como imperativo de consciência e necessidade histórica. Desejava-a equânime, fortemente representativa, sem a moral indecisa e sem a implícita conspiração de uma classe que me repugna e se julga acima do mal e do bem. A democracia não é isto que a violência simbólica tem promovido, e a ausência de debate tem consolidado.
O discurso político é inassimilável, embora seja definível pelos traços essenciais das semelhanças de uns com os outros.
Esta democracia é uma desgraça. E os protagonistas são pessoas inadequadas à construção da sua desejável e inequívoca grandeza. O que dizem reativa, permanentemente, a colonização das mentes, porque o que dizem é baseado em velhos conceitos de exclusão do "outro". Esta democracia reflete a debilidade de convicções morais de quem dela se diz paladino. O que por aí se vê de corrupção, de mentira, de fraqueza dos mecanismos institucionais, de hipocrisia, de inquietação social, resulta das enormes variações de carácter e de ideologia daqueles que abandonaram a defesa das específicas identidades partidárias.
O desfile de nulidades de que as televisões são palco constitui a afirmação de um tribalismo generalizado, que não comporta a esperança mas a resignação. Esta democracia é uma desgraça porque espicaça o desprezo, alimenta o ressentimento, incrementa o rancor.
Tudo isto é muito mau: a mediocridade dos dirigentes; a incultura e a ignorância dos quadros intermédios; o culto da competitividade como modo e forma de triunfo; o apagamento da cidadania; a liturgia do dinheiro como expressão única de ascensão. A natureza profunda do envilecimento do regime encontra-se na péssima qualidade dos seus dirigentes. Esta democracia é uma miséria. Mas é minha. Também eu a construí.
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